“As Marias”: como o microcrédito empodera mulheres no interior de Pernambuco

 

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Lilian Prado conta como, ao participar de um projeto social, percebeu que aquilo poderia ser replicado. E decidiu ela mesma fazer isso, criando uma organização e um fundo de financiamento para mulheres (foto: Brenda Alcântara).

 05/12/2017

O pequeno município de Glória do Goitá, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, tem aproximadamente 30 mil habitantes. Sua economia é tradicionalmente baseada nos pequenos comércios e na agricultura familiar. Embora tenha ganhado um distrito industrial recentemente, as oportunidades por lá ainda são escassas. É neste cenário carente, parecido com o de várias cidades do interior do Brasil, que janelas de oportunidades estão sendo abertas pela força dos negócios femininos — por meio do fundo de financiamento “As Marias”.

A mulher que primeiro hasteou essa bandeira foi Lilian Prado, 32. Nascida em Glória do Goitá, co-fundadora e diretora executiva da ONG Acreditar, ela tinha apenas 17 anos quando, como diz, descobriu que seu destino não precisava ser como o de tantas conterrâneas (a saber: casar precocemente e passar a vida apenas cuidando dos filhos). Ao participar de um projeto social, ela viu que mulheres podiam ter voz e ser donas da própria história. Naquele momento, ela decidiu fazer a diferença ali mesmo, na sua terra.

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Natália Laurentino é uma das beneficiadas d’As Marias: ela usou o crédito para comprar roupas para revenda (foto: Brenda Alcântara)

Em 2006, a empreendedora social associou-se a outros “sonhadores” e juntos fundaram a Acreditar, focada no incentivo a atividades produtivas na cidade e em municípios vizinhos. No caminho, descobriram que mais de 70% do público interessado era formado por mulheres. Foi assim que surgiu o fundo de financiamento “As Marias”, do qual falaremos nesta reportagem, cujo objetivo é oferecer microcrédito facilitado para fortalecer pequenos negócios e mulheres de baixa renda.

Até agora, já foram emprestados quase 500 mil reais em recursos que atenderam mais de 200 mulheres em Glória do Goitá e nos municípios vizinhos como Pombos, Lagoa de Itaenga, Carpina, Chã de Alegria, Feira Nova e Gravatá. O teto para cada operação é de 1 mil reais, valor que pode ser contraído mais de uma vez e pago em até dez meses, com juros de 3,5% a 3,9% ao ano.

CRÉDITO SEM COMPROVAÇÃO DE RENDA: O QUE VALE É TER UM PROJETO

Diferentemente de um banco ou outra instituição financeira, o fundo de financiamento As Marias não exige comprovação de renda, nem outras garantias. O único requisito é que a “Maria” a ser beneficiada tenha um projeto, que pode ser apenas a ideia de abrir um salão de beleza, vender roupas ou lanches. Lilian fala a respeito:

“Isso faz toda a diferença porque estamos falando de mulheres que muitas vezes nunca trabalharam, nem tiveram estudo. São pessoas invisíveis economicamente”

O modelo desse banco dos sonhos foi inspirado no Grammen Bank, desenvolvido Nobel da Paz Muhammad Yunus, em Bangladesh. Assim como a iniciativa de Yunus (de quem Lilian fala com grande admiração) o projeto utiliza o microcrédito facilitado e orientado para fortalecer a economia local. 

ter“Eu achava que mulher não tinha opinião, que minha vida era ser dona de casa e esperar pelo dinheiro do meu marido. Hoje sei que posso fazer o que eu quiser, diz Érika Maria do Nascimento, 32, que abriu um pequeno salão em casa com o financiamento de 1 mil reais do projeto.

A estrutura humilde do negócio, apenas com uma cadeira e um pequeno balcão, tem para ela um valor muito maior. Lá, a empreendedora pode trabalhar e ao mesmo tempo ficar perto dos três filhos pequenos. Compro minhas coisas, posso levar meus filhos para passear, até comprei até um carro”, conta orgulhosa, enquanto atende mais uma cliente. 

É MEIO QUE UM “SEBRAE DE MULHERES”

Mais do que o financiamento, usar a renda como um veículo de empoderamento feminino é a grande sacada do projeto As Marias. “Muitas vezes as empreendedoras demoram a nos procurar porque, afinal, quem vai emprestar dinheiro para uma pessoa que não tem renda, nem patrimônio?”, diz Lilian. Ela diz que muitas vezes o marido não apoia a decisão da mulher de trabalhar e conta:

“Elas chegam tímidas, acuadas e, durante o processo, essa postura muda. Nossa atuação vai muito além do nível financeiro, é uma luta pela igualdade de gênero”

As participantes também têm acesso a uma série de formações e consultorias, em um modelo parecido com um “Sebrae de mulheres”. Os cursos englobam desde gestão de negócios e finanças pessoais até conteúdos de igualdade de gênero. Elas também recebem cartilhas com orientações sobre violência doméstica e informações sobre as redes de apoio, como a Delegacia da Mulher.

“Fiz curso de compras coletivas (que ajudam a baratear os custos) e de automaquiagem. Mudou tudo porque me sinto satisfeita de poder comprar uma roupa pro meu filho ou algo para mim”, diz Rafaela Pascoal, de apenas 24 anos, que usou o financiamento para comprar o material usado nos seus atendimentos como manicure, além de roupas para revender. Outra participante do projeto, Natália Laurentino, 30, também fala a respeito: “Ter o meu dinheiro, ajudar meu esposo é uma conquista muito grande”. Ela já fez mais de um financiamento para investir na compra de roupas para revenda.

O DESAFIO DE MANTER A SUSTENTABILIDADE

Como a Acreditar e o fundo de financiamento As Marias não têm fins lucrativos, o dinheiro que sustenta a operação vem do apoio de entidades, como a Brazil Foundation e de premiações conquistadas pela ONG. As iniciativas de microcrédito capitaneadas pela Acreditar já chamaram atenção até do maior ídolo de Lilian, o próprio Muhammad Yunus, que homenageou a Acreditar no Especial Inspiração do programa Caldeirão do Huck, da TV Globo. Mesmo assim, os recursos ainda são escassos.

“A gente não consegue financiar nem 50% dos projetos que chegam”, afirma Lilian. Para angariar fundos, recentemente a ONG Acreditar criou uma campanha de doações na internet chamada Abrace As Marias. O objetivo é arrecadar 50 mil reais até o fim deste ano. Até agora, cerca de 20% da meta foi alcançada.

“Queremos mobilizar a sociedade para abraçar o projeto porque as mulheres precisam enxergar o poder que elas têm. Quando a mulher muda, essa mudança afeta todos ao seu redor, seus familiares, amigos e a sociedade”, diz Lilian, que é formada em administração, casada e mãe de uma menina de dois anos. A capitã do projeto é, ela mesma, o retrato do poder transformador que o empoderamento feminino pode promover. “Cresci na roça ouvindo que mulher não sabe administrar, que deve ficar calada, falar baixo. Mas tive uma oportunidade de mudar minha visão. E essa é a minha mensagem para todas nós: não existe não poder, existe falta de oportunidade”. Por um mundo com muito mais Marias.

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